ENTRE O CAMPO E O ESTEREÓTIPO: IMAGINÁRIO GEOGRÁFICO E A INVISIBILIDADE DA MULHER NORDESTINA NO FUTEBOL BRASILEIRO

Autores

Palavras-chave:

Futebol de mulheres, Região Nordeste, Gênero

Resumo

Este artigo analisa como os estereótipos de gênero e o preconceito regional operam para estabelecer barreiras simbólicas que reforçam a invisibilidade da mulher nordestina no futebol brasileiro. O trabalho justifica-se pela marginalização que os estudos de gênero ainda ocupam na Geografia dos Esportes, apesar do avanço na compreensão do futebol como fenômeno estruturante do território. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa de natureza exploratória e crítica, utilizando a Análise de Conteúdo e a Análise Léxica, para confrontar o discurso hegemônico. O levantamento fundamenta-se em duas frentes: revisão bibliográfica sobre a “invenção do Nordeste”, como uma região generificada e a análise de reportagens publicadas entre 2018 e 2026 referentes ao futebol de mulheres. Os resultados demonstram que a marginalização da atleta nordestina não é um fato isolado, mas parte de um projeto de significação regional que associa o Nordeste ao atraso e ao passado, em oposição a um Sul-Sudeste idealizado como moderno e desenvolvido. Conclui-se que a cobertura esportiva nacional pratica uma invisibilidade seletiva, frequentemente retratando o futebol de mulheres nordestino através da lente do exótico, do heroísmo ou da carência financeira, em detrimento da competência técnica e do profissionalismo das equipes e jogadoras da região. Palavras-chave: Futebol de Mulheres. Região Nordeste. Gênero.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

ABREU, Capistrano de. Capítulos de História Colonial.1ª edição: 1907. Brasília: Conselho Editorial do Senado Federal, 1998.

ABREU, João Capistrano de. Caminhos antigos e povoamento do Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Capistrano de Abreu, 1930. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/597662. Acesso em: 01 mar. 2026.

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2009.

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Limites do mando, limites do mundo: a relação entre identidades de gênero e identidades espaciais no nordeste do começo do século. História: questões e debates, Curitiba, n. 34, 2001.

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Nordestino: uma invenção do falo; uma História do gênero masculino (Nordeste – 1920/1940). Maceió: Catavento, 2003.

ALMEIDA, André. Desistência escancara falta de interesse e de projeto do Ceará com o futebol feminino. Diário do Nordeste, Fortaleza, 21 fev. 2024. Disponível em: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/andre-almeida/desistencia-escancara-falta-de-interesse-e-de-projeto-do-ceara-com-o-futebol-feminino-1.3485997. Acesso em: 19 fev. 2026.

ANDRADE, Manuel Correia de. A terra e o homem no Nordeste. 7. ed. São Paulo: Livraria Ciências Humanas, 2005.

AZEVEDO, Ana Karina Silva; DUTRA, Elza Maria do Socorro. Era uma vez uma história sem história: pensando o ser mulher no Nordeste. Revista Pesquisas e Práticas Psicossociais, [S. l.], v. 14, n. 2, p. 1–14, 2019. Disponível em: http://www.seer.ufsj.edu.br/revista_ppp/article/view/e2800. Acesso em: 9 jan. 2026.

BARBOSA, Bianca Monteiro Spínola. Barreiras e superações: a história do futebol de mulheres no Brasil e sua relação com o espaço geográfico. [S.l.]: Universidade Estadual Paulista (Unesp), 3 nov. 2025.

BARDIN, Lawrence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 1977.

BERTOLDO, Sanny. Apenas 2,7% gestores dos clubes de futebol são geridos por mulheres. Gênero e Número, 2021. Disponível em: https://www.generonumero.media/reportagens/mulheres-no-futebol/. Acesso em: 17 dez. 2025.

BONFIM, Aira Fernandes. Futebol feminino no Brasil: Entre festas, circos e subúrbios, uma história social (1915-1941). São Paulo: [s. n.], 2023.

BRASIL. Decreto-Lei nº 3.199, de 14 de abril de 1941. Estabelece as bases de organização dos desportos em todo o país. Rio de Janeiro: Presidência da República, 1941. Disponível em: www.planalto.gov.br. Acesso em: 20 fev. 2026.

CAPRA, Mariana Campos. A construção da imagem das jogadoras de futebol brasileiras. 2024. 132 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) - Escola de Comunicação, Arte e Design, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2024.

CASTRO, Josué de. Geografia da fome: o dilema brasileiro: pão ou aço.14 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

CONVOCADAS do Brasil para Copa do Mundo 2023: veja a lista de Pia. GE, 27 jun. 2023. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2023/06/27/convocadas-do-brasil-para-copa-do-mundo-2023-veja-a-lista-de-pia.ghtml. Acesso em: 10 jan. 2026.

COSTA, Adriano Borges (org.). Tecnologia social e políticas públicas. São Paulo: Instituto Pólis; Brasília: Fundação Banco do Brasil, 2013.

CUNHA, Euclides da. Os sertões. Rio de Janeiro: Laemmert, 1902. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4778. Acesso em: 03 mar. 2026.

FISCHER, Izaura Rufino. O protagonismo da mulher rural no contexto da dominação. Recife: Massangana, 2006.

FURTADO, Celso. (1961). Desenvolvimento e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009

FURTADO, Celso. A pré-revolução brasileira. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1962

GOELLNER, Silvana Vilodre. Mulheres e futebol no Brasil: entre sombras e visibilidades. Revista brasileira de educação física e esporte, v. 19, n. 2, p. 143-151, 2005.

GOELLNER, Silvana Vilodre. “As mulheres fortes são aquelas que fazem uma raça forte”: esporte, eugenia e nacionalismo no Brasil no início do século XX. Recorde: revista de história do esporte, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 1-28, jun. 2008.

HEREDIA, Beatriz Maria Alasia de. A divisão do trabalho entre homens e mulheres. In: LOUREIRO, Maria Rita (org.). Agricultura familiar e reforma agrária no Brasil. Rio de Janeiro: IBASE, 1996.

HOORNAERT, Eduardo. Formação do catolicismo brasileiro: 1550-1800. Petrópolis: Vozes, 1978.

HOORNAERT, Eduardo. O cristianismo moreno no Brasil. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Semiárido. In: Quadro geográfico de referência para produção, análise e disseminação de estatísticas. Rio de Janeiro: IBGE, 2021. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/apps/quadrogeografico/pdf/21_Semiarido.pdf. Acesso em: 15 mar. 2026.

JANUÁRIO, Soraya Barreto; LEAL, Daniel. Seleção Brasileira e futebol de mulheres no Nordeste: descaminhos de um mesmo problema. Ludopédio, São Paulo, v. 144, n. 37, 2021.

KNIJNIK, Jorge Dorfman. Femininos e masculinos no futebol brasileiro. 2006. Tese (Doutorado em Psicologia Social) - Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.

LANCE!. Após acesso inédito, Fortaleza encerra atividades no futebol feminino. Terra/Lance!, São Paulo, 29 dez. 2025. Disponível em: https://www.lance.com.br/futebol-feminino/fortaleza-encerra-atividades-futebol-feminino.html. Acesso em: 12 jan. 2026.

LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o sistema representativo no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.

LIMA, Venício A. de. Mídia: crise política e poder no Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2006.

LINDO, Paula Vanessa De Farias; PEREIRA, Stéfany. Geografias feministas e interseccionalidade como metodologias para ler e estar no mundo: investigando mulheres torcedoras de futebol e o machismo. GEOFRONTER, v. 9, 2023.

LOUREIRO, Tiago. Falta de profissionalismo é empecilho para a afirmação do futebol feminino no estado. Globo Esporte PB, João Pessoa, 24 mar. 2018. Disponível em: https://ge.globo.com/pb/noticia/falta-de-profissionalismo-e-empecilho-para-a-afirmacao-do-futebol-feminino-no-estado.ghtml. Acesso em: 8 fev. 2026.

MALVEZZI, Roberto. Semi-árido: uma visão holística. Brasília: Confea, 2007. Disponível em: https://bibliotecasemiaridos.ufv.br/jspui/handle/123456789/380. Acesso em: 05 mar. 2026

MASCARENHAS, Gilmar de Jesus. A geografia e os esportes: uma pequena agenda e amplos horizontes. Conexões, v. 1, n. 2, p. 46-46, 1999.

MIGRAÇÕES concentram futuro do futebol feminino no Sul e Sudeste. Agência Brasil, Brasília, 23 ago. 2023. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/esportes/noticia/2023-08/migracoes-concentram-futuro-do-futebol-feminino-sul-e-sudeste. Acesso em: 19 mar. 2025.

MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec Editora, 2014.

MOURÃO, Ludmila; MOREL, Marcia. As narrativas sobre o futebol feminino: o discurso da mídia impressa em campo. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, [S. l.], v. 26, n. 2, 2008.

NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do. Trajetória da sustentabilidade: do ambiental ao social, do social ao econômico. Estudos Avançados, São Paulo, v. 26, n. 74, p. 51-64, 2012. DOI: https://doi.org/10.1590/S0103-40142012000100005.

NASCIMENTO, Karine. A verdadeira regra do impedimento: a história do futebol feminino cearense. Natal: Primeiro Lugar, 2019.

NEGREIROS, Adriana. Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

OLIVEIRA, Francisco de. Elegia para uma re(li)gião: SUDENE, Nordeste, planejamento e conflito de classes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.

PIMENTA, Rosângela Duarte. Desvendando o jogo: futebol amador e pelada na cidade e no sertão. 2009. Tese (Doutorado em Sociologia) - Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2009. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/9468/1/. Acesso em: 10 fev. 2024.

SACHS, Ignacy. Desenvolvimento: includente, sustentável, sustentado. Rio de Janeiro: Garamond, 2008.

SÃO PAULO amplia olhar para o mercado sul-americano no feminino; veja nomes já anunciados. O Tempo, Belo Horizonte, 9 jan. 2026. Disponível em: https://www.otempo.com.br/sports/futebol-feminino/2026/1/9/sao-paulo-amplia-olhar-para-o-mercado-sul-americano-no-feminino-veja-nomes-ja-anunciados. Acesso em: 9 fev. 2026.

SILVA, Giovana Capucim. Mulheres impedidas: a proibição do futebol feminino na imprensa de São Paulo. Rio de Janeiro: Multifoco, 2017.

SILVA, Jailma Maria da. O signo linguístico e a representação semiólogica da mulher nordestina: olhares plurais. Seminário Interlinhas, [S. l.], v. 10, n. 1, 2022.

SILVA, Joseli Maria. Geografias feministas, sexualidades e corporalidades: desafios às práticas investigativas. Espaço e Cultura, Rio de Janeiro, v. 27, p. 37-54, 2010.

SILVA, Joseli Maria. Geografias subversivas: discursos sobre espaço, gênero e sexualidades. Ponta Grossa: Todapalavra, 2009.

SILVA, Natalia. História oral de mulheres do futebol brasileiro através da memória de mulheres não brancas nascidas no Norte e Nordeste do Brasil. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE ESTUDOS SOBRE FUTEBOL, 4., 2022, São Paulo. Anais [...]. São Paulo: Museu do Futebol: Sesc Pompeia, 2022. Disponível em: https://dados.museudofutebol.org.br/site/siteanexos/download/770228. Acesso em: 29 out. 2025.

SILVA, Roberto Marinho Alves da. Entre o combate à seca e a convivência com o semiárido: transições paradigmáticas e sustentabilidade do desenvolvimento. 2006. 298 f. Tese (Doutorado em Desenvolvimento Sustentável) – Universidade de Brasília, Brasília, 2006. Disponível em: https://repositorio.unb.br/handle/10482/2309. Acesso em: 1 mar. 2026

SILVEIRA, Crisneive. Opinião: Fim das Leoas expõe fragilidade estrutural do Fortaleza no futebol feminino. Diário do Nordeste, Fortaleza, 30 dez. 2025. Disponível em: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/jogada/fim-das-leoas-expoe-fragilidade-estrutural-do-fortaleza-no-futebol-feminino-1.3722707. Acesso em: 24 jan. 2026

Downloads

Publicado

05-08-2026

Como Citar

RAVETTE, J. H.; BRITO, A. de S. L. de; CADENA, D. ENTRE O CAMPO E O ESTEREÓTIPO: IMAGINÁRIO GEOGRÁFICO E A INVISIBILIDADE DA MULHER NORDESTINA NO FUTEBOL BRASILEIRO. Revista Homem, Espaço e Tempo, [S. l.], v. 20, n. 2, p. 249–269, 2026. Disponível em: //rhet.uvanet.br/index.php/rhet/article/view/818. Acesso em: 24 ago. 2026.